domingo, 3 de dezembro de 2017

Três ideologias modernas, nos últimos duzentos anos, descristianizam, dessacralizam e tiram do imaginário popular a noção da transcendentalidade da vida, desumanizando a pessoa. São ideologias imanentistas, que acreditam na construção da sociedade perfeita, o paraíso terrestre. São elas: o liberalismo, o comunismo e o marcusianismo.
O liberalismo, originário do Iluminismo e da Revolução Francesa, antireligioso, laicista, destronou Deus e entronizou a razão, o homem como a divindade suprema. Fundado no lema  "liberdade, igualdade e fraternidade" criou a democracia liberal, onde a política e o Estado assumiram o pretenso papel de  redentores,  de salvadores, parâmetros da verdade e da moralidade. O liberalismo construiu a "ditadura do relativismo", os subjetivismos modernos, relegando a verdade e o bem aos caprichos e aos juizos individualistas, interesseiros e utilitaristas.
O comunismo, criado por Marx e Engels, difundido em diversas vertentes, como o fabianismo e o gramscismo, criou a ideia da construção do paraíso na terra, um mundo igualitário, sem classes, controlado pela ditadura coletivista. A cultura comunista, fundada no materialismo histórico e na luta de classes, no coletivismo e na submissão das instituições ao Estado, tornou-se hegemônica, conquistou os corações e as mentes, pela via cultural, dominando as universidades, a educação e a mídia.
O marcusianismo, de Herbert Marcuse, teórico da Escola de Frankfurt, inspirado no pensamento de Marx, de Nietzsche e Freud, encontrou nas democracias liberais o espaço perfeito para a revolução, pela via da liberalização dos costumes, da revolução sexual, acampada pelos feminismos, pelo capital financeiro, pelos "progressistas", desconstruindo a moralidade cristã, grande pilar da civilização ocidental.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O  "ilustre desconhecido", socialismo fabiano, está mais presente nas nossas vidas do que possamos imaginar. Ele surgiu com a fundação da Sociedade Fabiana de Londres em 1884. Os seus inimigos são a Religião, as Tradições e a Família.
Bernard Shaw, H.G. Wells e A. Huxley são alguns dos seus expoentes. Em Admirável Mundo Novo, Huxley sugere a linha de pensamento e de ação do fabianismo: a criação de um  governo central forte, a hipersexualização da sociedade e o consumo de drogas, como contrapontos da civilização conservadora.
A música Imagine, de John Lennon, expressa muito bem tais pretensões perversas. É parte da agenda fabiana a promoção de uma religião sem dogmas nem crenças, de um Estado controlador, que estabelece os parâmetros da moralidade, que planeja e controla a cultura, que legisla sobre a vida, que promove o  controle populacional,  até o aborto, que determina o que devemos aprender, pensar e até  sentir.
E no aspecto cultural a educação, as manifestações artísticas e as diversas mídias promovem a revolução sexual, presente nas agendas feministas e de outros movimentos sociais, com o objetivo de quebrar tabus, ou melhor, de destruir a moralidade natural, as tradições e a família. E para suportar viver numa sociedade caótica, gerada pela própria hipocrisia revolucionária, urge liberar o consumo de drogas.
Este é o estado de revolução permanente. E quando o caos estiver generalizado na sociedade, somente o Estado, dominado pela elite "pensante", portadora do conhecimento da verdade, do bem e do mal, será o único legítimo porta voz da salvação ... e nos dominará por completo, matando nossos princípios, nossas convicções, nossas crenças e nossas famílias. Essa é agenda da Revolução Cultural.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Considerações críticas sobre a 3ª versão da BNCC (Base Nacional Comum Curricular)


PALESTRA NO ENCONTRO DE DIRETORES E COORDENADORES DAS ESCOLAS DA ADMINISTRAÇÃO APOSTÓLICA (05-08-17)

O objetivo desta palestra é fazer algumas reflexões e considerações críticas sobre a 3ª versão da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), a ser homologada pelo CNE (Conselho Nacional de Educação) neste ano de 2017. É necessário compreender os seus princípios norteadores e o seu papel no futuro da educação brasileira. Instituições por todo o país promovem congressos, seminários e debates sobre a Base e muitos ressaltam os seus pontos positivos e os avanços que ela trará na educação. A centralidade da formação cidadã, pautada no respeito ao outro, na tolerância, na solidariedade, na inclusão e em outros diversos valores sociais são exemplos de aspectos bastante positivos. No entanto, diversos autores têm visto nela uma centralização ilegal da educação pelo Estado, uma concepção materialista do ser humano, reducionista, que desconsidera a espiritualidade como parte essencial da natureza humana, além da permanência da ideologia de gênero perpassando quase todo o texto e do enfoque multiculturalista relativista da educação. Estes elementos provocarão, mais do que mudanças, uma verdadeira revolução educacional e por consequência sociocultural no Brasil.
A 1ª versão da BNCC foi elaborada por 116 especialistas e serviu de base para a elaboração das outras duas versões, referendadas por uma consulta pública (12 milhões de contribuições, sistematizadas por pesquisadores da Universidade de Brasília e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). A BNCC determina diretrizes, conteúdos (60%) e competências (conhecimento mobilizado, operado e aplicado nas situações reais) a serem praticadas no sistema educacional brasileiro. As políticas públicas de educação, as avaliações externas, como a prova do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), os currículos, os projetos educacionais e toda as práticas pedagógicas realizadas nas escolas serão adequadas, moldadas pela Base.
E mesmo que a BNCC justifique um embasamento legal fundado na Constituição de 1988 e na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996), alguns autores chamam a atenção para os seus aspectos centralizadores ilegais. Dizem que a criação de um sistema único de educação contraria a Constituição de 1988 (artigo 205 e 210) e a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1966, artigo 15), que consideram além do Estado e da escola, a família como educadora. E a nova versão da Base não é apenas constituída de diretrizes e bases, mas de um detalhamento gigantesco de conteúdos e competências definidos por um sistema único de educação, que de certa forma anula o papel da família e a própria autonomia pedagógica das escolas. Bem de acordo com um certo viés ideológico que defende o protagonismo do Estado na educação e que considera a família como conservadora e a sua formação incompleta, muitas vezes preconceituosa e retrógrada para os padrões culturais da pós-modernidade. É o Estado sequestrando nossas crianças, nossas mentes e corações.
O padre José Eduardo, doutor em Teologia Moral pela Università dela Santa Croce, em Roma, em entrevista à agência de comunicação Zenit (2016), traça um histórico da legislação brasileira mostrando a tendência contrária à criação de um “sistema único” (expressão do professor Jamil Cury, amigo do professor Demerval Saviani, numa conferência do CONAE em 2010), de educação e os seus propósitos revolucionários. Demonstra que a centralização produzirá uma ideologização da educação, cuja meta, travestida de formação para a cidadania, passa a ser a criação de uma nova sociedade, pautada nos princípios do pragmatismo, do materialismo, do desconstrucionismo e do relativismo. 
A BNCC, na introdução, define como objetivo central da educação a formação integral da pessoa, a sua formação para a cidadania e a construção de uma sociedade democrática. E para ela a formação integral, global do homem, deve considerar a perspectiva cognitiva, emotiva, estética, física e sociocultural. Mas, afinal, qual é a concepção de homem considerada pelos seus autores? É uma visão materialista, pois desconsidera o transcendental, a espiritualidade como aspecto fundamental da essência do ser homem. Tanto que o ensino religioso, como oferta obrigatória pelas instituições de ensino e opcional ao aluno foi retirado da Base e todas as competências focam nas dimensões materiais da vida humana, desconsiderando a transcendentalidade da vida.
 A Igreja Católica, perita em humanidade, com experiência de dois mil anos de história no processo de evangelização e de educação, aliás, a grande fomentadora da educação, fundadora de escolas e universidades e organizadora de sistemas de ensino que vigoraram por séculos, concebe o homem como criatura de Deus, composto de corpo e de uma alma espiritual e imortal, possuidor de um destino eterno e de uma natureza decaída pelo pecado. E a partir desta concepção a Igreja tem ideias e propostas claras sobre a educação. Defende o princípio de subsidiariedade, que a família é a primeira educadora e a escola e o Estado são apenas colaboradores complementares desta nobre missão. Entende que a formação global da pessoa não se reduz aos aspectos materiais da vida humana, como a formação para o mercado de trabalho, mas a educação que considera essencialmente três aspectos fundamentais da natureza humana: a racionalidade, a emotividade e a espiritualidade.
Assim, afirma que é preciso dar uma formação cognitiva que satisfaça o motivo para o qual existe a inteligência, o conhecimento da verdade. O educando tem que aprender a pensar, não ser “adestrado” como um mero repetidor de conhecimentos, doutrinado por quaisquer ideologias. E a verdadeira educação deve contemplar também a dimensão espiritual do homem, que é inerente à sua natureza e transcende a vida material. É preciso educar para a Fé, ensinar as crianças a fazerem experiências de Fé, a terem contato com as verdades espirituais iluminadas pelo Espírito Divino, a compreenderem a importância da Religião para a construção de uma sociedade ética, pautada na prática das virtudes, cimento da paz social. Acreditar numa educação laicista, que não reconhece Deus e nem a dimensão espiritual do homem e na construção uma sociedade alicerçada apenas em valores derivados de convenções humanas e do consenso universal é uma utopia. Exatamente como afirmou Ivan Karamazov, do romance Os irmãos Karamazov, do grande Fiódor Dostoiévski (1821-1881), que se Deus não existe, tudo é permitido.
Outro princípio norteador da BNCC é a questão do pluralismo, do multiculturalismo, centrados na aceitação, defesa e valorização da diversidade, aliás, palavra insistentemente repetida (111 vezes) no texto da Base. Assim, as convivências humanas devem ser regidas pelo diálogo e pela valorização das diferenças. Não existe cultura superior, mais avançada, mas apenas a diferença, o outro, que deve ser aceito, reconhecido, acolhido e amado.
Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de origem, etnia, gênero, idade, habilidade/necessidade, convicção religiosa ou de qualquer outra natureza, reconhecendo-se como parte de uma coletividade com a qual deve se comprometer. (BNCC p.19)
É o triunfo do subjetivismo, da “ditadura do relativismo”, como diz Bento XVI. Tudo fica reduzido à problematizações, desnaturalização segundo o conceito de Foucault (1926-1984), ao império da dúvida, da incerteza e sujeito às interpretações, às experiências vivenciadas pelos sujeitos nas diversas culturas, mesmo aquelas detentoras de barbaridades como as mutilações genitais de mulheres na África, as apologias da violência nas letras de Funk e o uso indiscriminado de drogas nas festas Rave, entendidas como formas genuínas de expressividade cultural e algumas delas muitas vezes até elogiadas como a expressão da contracultura, da voz das minorias oprimidas pelo conjunto sistemático da moralidade ocidental burguesa.
É evidente que o diálogo, a aceitação e o amor são valores importantes para a convivência fraterna, porém sem os limites da verdade, do bem e sem os princípios éticos derivados da Lei Natural e dos mandamentos divinos não haverá relações humanas saudáveis e nem paz social.  
Outro elemento polêmico da 3ª versão é a permanência da ideologia de gênero, como demonstra o brilhante estudo de Orley José da Silva (UFG), mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás e Viviane Petinelli, doutora em Ciência Política (UFMG/Harvard) no texto “A 3ª versão da BNCC: análise e constatações (Nota Técnica)”.
Orley e Viviane destacam que por causa das pressões da frente parlamentar católica e evangélica houve vitórias políticas simbólicas contra a ideologia de gênero. Os conceitos de “identidade de gênero” e “orientação sexual” foram retirados do texto da Base. Porém a ideologia de gênero, por meio de estratégias linguísticas, de discursos pretensamente científicos, expressa por palavras carregadas de significados de identidade pessoal, em períodos bem construídos, de forma camuflada e sutil, perpassa de forma diluída todo o texto.
A pedagoga Priscila Pereira Boy, no seu artigo Discussões sobre a Ideologia de Gênero, para o  Educare (Jornal da Pastoral da Educação da Administração Apostólica, ano 1, nº 3) diz:
“A Ideologia de Gênero, ou melhor dizendo, a Ideologia da Ausência de Sexo, é uma crença segundo a qual os seres humanos nascem ‘iguais’, sendo a definição do ‘masculino’ e do ‘feminino’ uma construção social, ou seja, comportamentos aprendidos. Despreza-se a determinação biológica do sexo, para conceber a ideia de que ninguém nasce homem ou mulher, aprende-se a sê-lo na criação que se recebe, nos costumes e papéis que a sociedade diz que você deve desempenhar”.

Segundo Orley e Viviane a ideologia de gênero visa desconstruir a heteronormatividade (normalidade de ser homem e ser mulher), com um discurso de condenação da família patriarcal, sob o pretexto de acabar com o preconceito, a discriminação e a exclusão. E os seus ideólogos defendem a problematização da família tradicional, a desconstrução na cabeça das crianças da família natural, do casamento, do modelo hegemônico de família, e de toda a moral religiosa que constituem o fundamento judaico-cristão da nossa sociedade.

Autores como o Dr. Jorge Scala, no seu livro Ideologia de Gênero: O Neototalitarismo e a Morte da Família (2011), diversos cardeais e bispos, como por exemplo, Dom Orani Tempesta e dom Fernando Rifan, os padres José Eduardo e Paulo Ricardo e tantos outros, em inúmeros artigos e textos disponíveis na internet denunciam a ideologia de gênero como artífice da destruição da moralidade, dos valores cristãos, da família, do casamento e do próprio sujeito em sua natureza. O papa emérito Bento XVI afirmou que a ideologia de gênero é um pecado contra o Deus Criador e o Papa Francisco disse: “Muitos problemas escondem ideologias. São verdadeiras colonizações ideológicas presentes na Europa, nos Estados Unidos, na América Latina, na África, na Ásia. “E uma delas – digo-a claramente por ‘nome e apelido’ – é o gênero”! Hoje, às crianças – às crianças! –, nas escolas, ensina-se isto: o sexo, cada um pode escolhê-lo” e acrescentou: “é terrível” (discurso na Polônia- 2017).
À guisa de conclusão eis algumas citações da 3ª versão da BNCC feitas por Orley e Viviane, que comprovam o seu perfil multiculturalista, relativista, desconstrucionista da heterenormatividade, da família, do casamento e dos valores da civilização cristã ocidental (Vale destacar que esta versão é para a Educação Infantil e Fundamental – temática para ser trabalhada com crianças e adolescentes e o pior, a critério da “criatividade” dos educadores):

(EF01HI07) Identificar mudanças e permanências nas formas de organização familiar, de modo a reconhecer as diversas configurações de família, acolhendo-as e respeitando-as (BNCC, p. 357).

Ao articular os aspectos sensíveis, epistemológicos e formais do movimento  dançado ao seu próprio contexto, alunos problematizam e transformam percepções acerca do corpo e da dança, por meio de arranjos que permitem novas visões de si e do mundo. Eles têm, assim, a oportunidade de repensar dualidades e binômios (corpo versus mente, popular versus erudito, teoria versus prática), em favor de um conjunto híbrido e dinâmico de práticas. [BNCC, p. 153]

(EF15AR12) Discutir as experiências corporais pessoais e coletivas desenvolvidas em aula, de modo a problematizar questões de gênero e corpo. [BNCC, p. 153].

(EF08CI11) Selecionar argumentos que evidenciem as múltiplas dimensões da sexualidade humana (biológica, sociocultural, afetiva e ética) e a necessidade de respeitar, valorizar e acolher a diversidade de indivíduos, sem preconceitos baseados nas diferenças de gênero. [BNCC, p. 301]

(EF09HI27) Avaliar as dinâmicas populacionais e as construções de identidades étnico-raciais e de gênero na história recente (BNCC, p. 381).

(EF09HI07) Identificar as transformações ocorridas no debate sobre as questões de gênero no Brasil durante o século XX e compreender o significado das mudanças de abordagem em relação ao tema (BNCC, p. 379).  

(EF69AR15) Refletir sobre as experiências corporais pessoais e coletivas desenvolvidas em aula ou vivenciadas em outros contextos, de modo a problematizar questões de gênero, corpo e sexualidade (BNCC, p. 165). 

Na Educação Infantil, o corpo das crianças ganha centralidade, pois ele é o partícipe privilegiado das práticas pedagógicas de cuidado físico, orientadas para a emancipação e a liberdade, e não para a submissão. (BNCC, p. 37).                                                                
                                                                                                    
                                                                  JOSÉ ANTÔNIO DE FARIA

                                                                   Professor Pós Graduado em História

segunda-feira, 5 de junho de 2017

As aparições de Nossa Senhora em Fátima: contexto histórico.



            Na plenitude dos tempos maus e de um futuro sombrio, no auge da construção da modernidade racionalista, materialista e ateia, da expansão do liberalismo e do modernismo relativistas, consequências das ideologias e das revoluções nos explosivos séculos XVIII e XIX, que provocaram a descristianização da sociedade, Nossa Senhora apareceu aos três pastorinhos de Fátima, no ano de 1917, em Portugal. Trouxe do céu uma mensagem de advertência e de salvação, repropondo os valores do Evangelho como remédios eficazes para a solução dos problemas e para a paz no mundo. E para compreender plenamente a mensagem de Fátima é fundamental o conhecimento dos processos históricos a ela relacionados.
            Naqueles finais do século XIX e primórdios do século XX havia uma contradição pairando sobre a Europa. Era o período da Belle Époque, caracterizado por um clima de euforia e otimismo, determinados pelos progressos da era da segunda revolução industrial, dos avanços científicos e da modernização da estrutura produtiva, transmitindo um sentimento de que todos os males da humanidade, como a miséria, a fome e as doenças seriam resolvidos. Os valores do Cristianismo ainda eram vivenciados nas relações sociais e impregnavam a cultura dos povos. A Igreja Católica tinha um relativo prestígio nas relações diplomáticas com as diversas nações e ainda existiam impérios cristãos, como o austro-húngaro, governado pelos Habsburgos, defensores seculares do patrimônio da fé e da civilização cristã. Por outro lado, desde o Iluminismo e a Revolução Francesa no século XVIII, “reeditada” diversas vezes no século XIX, fundados no desejo de “abalar os tronos e derrubar os altares” (SEGUIER, 1770) crescia uma mentalidade anticlerical, antirreligiosa, liberal, contra os dogmas da Igreja. Esta mentalidade evoluiu para o materialismo e o ateísmo, arquitetados por diversos pensadores. Marx (1818-1883) afirmou que “a religião é o ópio do povo”, droga que aliena o homem, Nietzsche (1844-1900) que “Deus está morto” e Freud (1856-1939) que “Deus é uma ilusão infantil e a religião uma neurose”.
            Como disse Edward Grey, em 1914 “as luzes se apagaram em toda a Europa”. O mundo experenciava os sofrimentos trágicos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), as destruições materiais, os massacres nos campos de batalha, a fome, a miséria, a desolação e a destruição das famílias, o que o papa Bento XV (1914-1922) chamou de “suicídio da Europa”, “tragédia inútil”, a “destruição da civilização cristã”, contra os quais esgotou todos os meios naturais, diplomáticos, sem sucesso. Tais desastres foram causados, como sugere a mensagem de Fátima e investigando mais profundamente, pela rejeição de Deus, pelo pecado do orgulho, da ganância e da ambição, traduzidos nas disputas e ódios nacionalistas, imperialistas e econômicos entre as potências europeias, dos quais o assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco Ferdinando e da sua esposa Sofia, católicos da dinastia dos Habsburgos, foi apenas a centelha que incendiou o barril de pólvora. Na Rússia, explodiria a Revolução Comunista em outubro de 1917, como fora prenunciado por Nossa Senhora nas aparições de 13 de julho do mesmo ano, vaticinando ódios, perseguições e massacres de milhões de pessoas, além da difusão da ideologia socialista pelo mundo, fundada no materialismo histórico, na luta de classes e no combate à religião.
            Em Portugal a República proclamada em 1910, de inspiração maçônica, dava seus frutos perversos: a Igreja era perseguida de todas as maneiras. As igrejas eram pilhadas, os conventos atacados, os religiosos assediados, padres e bispos exilados e uma legislação anticlerical e antirreligiosa suprimiu mosteiros, conventos e ordens religiosas, aprovou o divórcio, suprimiu o ensino religioso nas escolas, aboliu o juramento religioso, proibiu as celebrações públicas das festas religiosas e o uso da batina pelos sacerdotes. Mas apesar das perseguições a integridade da fé foi mantida pela resistência da Igreja portuguesa, liderada pelo papa São Pio X, que rejeitaram quaisquer compromissos com o governo maçônico e ateu.  O agravamento da situação veio com a entrada de Portugal na guerra, ampliando as crises econômicas, as desordens por toda parte, a anarquia, greves e violências. O país vivia a ameaça de uma guerra civil, situação aproveitada pela impiedade maçônica para espalhar a irreligiosidade entre as massas.
             Nossa Senhora advertiu que a guerra terminaria, mas que se os homens não se convertessem, no reinado de Pio XI, começaria outra pior, e que a Rússia espalharia os seus erros pelo mundo. Foi exatamente o que aconteceu nas décadas seguintes. A primeira guerra foi um divisor de águas, inaugurou de fato o século XX, marcado pelo relativismo moral e cultural, abalando os alicerces da civilização cristã, como afirmou o historiador Paul Johnson (1928). Das ruínas das trincheiras emergiu um mundo novo, assentado em valores propagados pelo American Way of Life (o jeito americano de ser), burgueses, hedonistas, materialistas, consumistas, iniciando a desconstrução dos valores tradicionais, do modo de vida simples, solidário, dos costumes cristãos das famílias, o que culminaria nos movimentos liberalizantes da contracultura da década de 1960. T.S.Eliot (1888-1965) disse que a libertação do culto a Deus cedeu lugar à veneração a tiranos sanguinários como Adolf Hitler, Lenin, Stálin e outros. 

As pilhas de cadáveres ideológicos do século XX, criados pelas duas guerras mundiais, pelos campos de concentração, pelos regimes comunistas e políticas econômicas desastrosas são os frutos do não acolhimento dos pedidos de Fátima (de conversão) pela humanidade hedonista e materialista, da substituição da ordem religiosa ancorada na Revelação Divina e da autoridade de Cristo pelo culto do Estado-Nação, dos césares da modernidade e dos ídolos forjados segundo os gostos e desejos dos homens. 

                                                José Antônio de Faria 

sábado, 20 de maio de 2017

A Igreja Católica moldou o Ocidente



O professor de História da Pensilvânia State University, Philip Jenkis, disse que "o anti-catolicismo é o último preconceito aceitável nos EUA". Realmente, nos EUA e no mundo, nas escolas e nas universidades, nos meios de comunicação e nos ambientes culturais em geral a Igreja Católica é ridicularizada, desprezada, considerada retrógrada, ultrapassada, contrária ao desenvolvimento científico e ao progresso. Contra a Igreja e os seus valores pode-se dizer tudo, sem preocupação com a análise criteriosa das fontes e a veracidade dos fatos e muito menos sem a tolerância tão apregoada pelos valores do politicamente correto no contexto do pluriculturalismo. As calúnias e as mentiras, os contra valores ensinados e os ataques repetidos constroem no imaginário popular uma falsa visão da Igreja, produzindo através da ridicularização o laicismo radical, a perda da fé e até o ateísmo teórico.

A Reforma Protestante e o seu ódio pela Igreja, o Renascimento e a mentalidade antropocêntrica, crítica da autoridade da Igreja e da Fé como critério de conhecimento, o Iluminismo e o racionalismo radical, deísta e anticlerical, as filosofias liberais e materialistas dos séculos XIX e XX, cujos interesses comuns eram desprestigiar a Igreja e promover as suas ideologias tornaram-se as fontes inspiradoras dos historiadores modernos, que fundados no relativismo cultural, no materialismo e no laicismo construíram uma historiografia de ódio contra a Igreja, denunciando ou desconsiderando o seu papel na formação da identidade do mundo ocidental.

Dizia Santo Agostinho que é preciso amar a Deus como pai e a Igreja como mãe. E como bons filhos, diante de tantas falsificações, mentiras e calúnias advindas de ideologias perversas é imperativo responder às críticas, e ao mesmo tempo reafirmar o papel do Cristianismo na construção do Ocidente. É uma questão de honestidade intelectual, de bom senso e de obrigação, especialmente para o historiador/pensador e para o professor católico, estudar, debruçar sobre as fontes primárias, desconstruir as críticas infundadas, mostrar as luzes, os benefícios da Igreja Católica para a humanidade em todos os campos dos saberes e dos fatos sociais. E para isso é preciso desconstruir a desconstrução, passar a história a limpo, ler autores como Daniel Rops, Thomas Woods, Régine Pernoud, Chistopher Dawson, Gertrude Himmelfarb, Edmund Burke, Paul Johnson e muitos outros historiadores, filósofos, pedagogos, autores clássicos, gênios, que sozinhos resumiram gerações inteiras de conhecimentos e acumularam séculos de cultura, promoveram uma sistematização dos saberes, que construiu o arcabouço cultural do Ocidente, pautado na verdade, no bem e na beleza.

O historiador americano Dr. Thomas Woods, PhD de Harvard nos EUA, em seu livro “Howthe Catholic Church Built Western Civilization (Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental; Regury Publishinglnc, Washington, DC, 2005) afirma que “Bem mais do que o povo hoje tem consciência, a Igreja Católica moldou o tipo de civilização em que vivemos e o tipo de pessoas que somos”. Embora os livros e textos típicos das faculdades não digam isto, a Igreja Católica foi a indispensável construtora da Civilização Ocidental. A Igreja Católica não só eliminou os costumes repugnantes do mundo antigo, como o infanticídio e os combates de  gladiadores, mas, depois da queda de Roma, ela restaurou e construiu a civilização”.

Somos frutos do papel civilizatório da Igreja. Os valores evangélicos fizeram a verdadeira revolução social. A mulher, a criança, o doente, os mais excluídos da sociedade foram defendidos, protegidos, considerados sujeitos de direitos e a sua dignidade elevada. A Igreja Católica inventou o ideal de caridade, reconhecida até por inimigos como Voltaire, socorreu os pobres, construiu hospitais, asilos, criou ordens religiosas para libertar escravos cristãos no mundo muçulmano, foi a única a assistir os assolados em épocas de epidemias, como a Peste Negra. Cuidou da educação. Criou escolas por toda parte, fundou as universidades e o próprio sistema universitário e valorizou a igualdade de condições para o acesso ao conhecimento.

O Direito Canônico foi o primeiro sistema legal moderno e foi decisivo na evolução do Direito, a enunciação de inúmeros princípios jurídicos pelos pensadores católicos deu origem ao Direito Internacional, cujo pai é o padre Francisco Vitória. No campo da Economia as ideias de preço justo, do valor subjetivo do dinheiro, da liberdade econômica e tantos outros princípios são de padres e bispos como Jean Buridan, Nicolau Oresme e muitos outros. A defesa da ideia da existência de um universo racional, ordenado, funcionando de acordo com leis naturais tornou possível o progresso das ciências. Aliás, inúmeros cientistas eram padres, destacando os jesuítas.

A Arte expressa na beleza das catedrais e dos vitrais, o valor do conhecimento difundido através das universidades e dos pensadores cristãos, a cultura antiga preservada através do trabalho dos monges copistas, a caridade, o desenvolvimento das ciências, a valorização da razão, os princípios da paz e da justiça social, o ideal de bem, de beleza e de verdade não existiriam nos moldes que temos hoje sem o trabalho da Igreja Católica.

                                 


 José Antônio de Faria

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Direita, "nova direita" e esquerda - breve reflexão



A direita clássica corresponde ao pensamento que advoga a adoção dos princípios do Cristianismo, fundados na Revelação e na Lei Natural, na política, na vida social, econômica e cultural. Deus, a Criação, a Redenção, o destino eterno, a prática da moral ancorada nos Mandamentos e no exercício das virtudes cristãs devem ser considerados nas análises dos fatos sociais e nas vivências cotidianas, o que não é consenso entre a "nova direita", que defende valores caros ao Cristianismo, como o direito à propriedade privada, a existência de instituições sólidas e atuantes ,a livre iniciativa e a não ingerência do Estado nos assuntos do âmbito familiar, mas que, em grande parte, se limita aos valores do Liberalismo Clássico, pautados no individualismo. Já o pensamento de esquerda é laicista, em geral antirreligioso, revolucionário, contra as instituições tidas como perpetuadoras da opressão burguesa, como a família e a Igreja. É defensor dos princípios materialistas como critérios de análises das Ciências Sociais e determinantes da práxis social.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Trabalho

Trabalho não é castigo, nem a razão fundamental da diferenciação dos homens em relação aos animais e causa da humanização. Trabalho é algo próprio, produto da natureza humana racional, necessário para a sobrevivência e gerador da riqueza das nações, como dizia Adam Smith, e por isso, deve ser honrado.
Ele não deve escravizar o homem e muito menos ser cultuado como um deus libertador, que constrói a essência humana e que deva ser a única realidade considerada nos processos históricos.
O trabalho molda o caráter, forma a pessoa, dignifica o homem. É na realização das tarefas diárias, dos nossos trabalhos, que cumprimos nossos deveres de estado, que exercemos a cidadania na sua forma mais sublime, de prestação de serviço ao outro, fundada nas relações de complementaridade inerentes à nossa natureza e necessário para a harmonia e a integralidade das relações sociais. 
O trabalho é um direito, mas principalmente um dever, pois a sua realização produz algo em troca, benefícios para a comunidade, diferente de uma sociedade histérica por direitos, que se torna estéril, engessadora das interações sociais e geradora de pobreza.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Disciplina

Pensadores como Foucault veem a disciplina como estrutura de poder de dominação das elites opressoras, como alienação pela manipulação do sujeito. Contestam, por exemplo, a disposição dos alunos em fila, as regras disciplinares em geral como "adestradoras" dos corpos e todos os mecanismos sociais disciplinadores... o "poder disciplinador" como "jogo moderno das coerções sobre os corpos, os gestos, os comportamentos" (Foucault, Vigiar e Punir, p.170).
Ideias como estas estão destruindo a educação, formando uma geração de jovens "conscientizada" dos seus direitos, mas sem a contrapartida da responsabilidade, sem o comprometimento com os seus deveres, uma geração contestadora, crítica, de tudo, sem discernimento da verdade e dos bons princípios morais como formadores do caráter.
Sem a prática das virtudes, sem a disciplina, o respeito e a obediência a sociedade caminha para a exacerbação dos conflitos, a desordem, o caos, que não serão eliminados com discursos utópicos, falaciosos e vazios.

sábado, 15 de abril de 2017

O ensino de Artes: uma reflexão.

Uma das Disciplinas do curso de Pedagogia é a de Tendências Contemporâneas do Ensino de Artes. Os seus ideólogos execram o ensino de Artes associado à Pedagogia Tradicional, que durante séculos se inspirou na Filosofia Perene, principalmente nas ideias de Aristóteles e Platão, segundo as quais a Arte deve fazer uma associação lógica entre o belo, a verdade e o bem, portanto tem uma função moralizante e civilizatória, de transmitir a realidade objetiva, a verdade. O historiador inglês, Paul Jhonson, nessa mesma perspectiva, afirma que a Arte que não inspira bons valores não serve para nada.
No atual contexto da corrente pedagógica da Diversidade e Pluralidade Cultural, inspirada nas ideias dos pensadores pós modernos, como Foucault e Deleuze, a Arte assume um caráter subjetivo, fundado no critério do relativismo cultural e moral, um caráter de transgressão e desconstrução, de ruptura revolucionária, com o objetivo de fundar uma nova sociedade, livre, sem as "amarras" do verdadeiro e do falso. Tudo em nome da liberdade, da autonomia e da criatividade ... sem a verdade, sem a transcendência, sem o bom senso e sem a compreensão da integralidade da pessoa humana.