sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Revoltas no Egito e vizinhos: primavera do mundo árabe (1)

ZP11022504 - 25-02-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27352?l=portuguese
ZP11022504 - 25-02-2011
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Entrevistado o perito em diálogo com o islã, Samir Khalil Samir

ROMA, sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) - Para o padre Samir Khalil Samir, jesuíta egípcio, professor de teologia e de islamologia no Pontifício Instituto Oriental e um dos maiores peritos do mundo em diálogo entre cristãos e muçulmanos, o atual movimento é uma “primavera” no mundo árabe, um novo passo rumo à democratização. Veja sua entrevista à ZENIT.
- Que leitura o senhor faz das recentes manifestações no Egito, que derrubaram o regime de Mubarak, e também das manifestações da Tunísia, Argélia, Irã e Líbia, pedindo o fim dos velhos regimes?
Pe. Samir Khalil Samir: Esses movimentos nasceram mais ou menos espontâneos; uma maioria de jovens, sem partidos políticos nem grupos organizados. É uma reação massiva, do povo.
Um segundo ponto em comum entre todos esses movimentos é que eles se voltam contra regimes de décadas, como é o caso da Tunísia (21 anos), do Egito (quase 30 anos), da Líbia (42 anos), do Iêmen (21 anos)... Tudo isso, praticamente em todo lugar, quer dizer que as pessoas estão esgotadas, que elas querem uma mudança e manifestam isso dizendo “Fora!”. Os lemas em árabe dizem irhal (ارحل), que significa “Vá embora!”. É um grito de “basta!”. Aliás, o movimento de oposição a Mubarak se chama em árabe “Basta”, Kefaya.
O terceiro aspecto que me impressiona, e que também é comum a todos esses países, é a motivação, essencialmente a de arrumar trabalho, fazer uma família, viver com um mínimo de decência. No caso da Tunísia, tudo começou com aquele jovem que tinha se formado e não achava trabalho, e que resolveu juntar o pouco que tinha, comprar um pouco de verdura e vender na rua. E aí chega a polícia e fala: “Você não tem autorização”, e leva embora toda a mercadoria. A vida daquele jovem desaba no ato, ali, quando ele estava lutando para viver, e ele tocou fogo em si próprio! Foi isto o que suscitou esse movimento na Tunísia.
No Egito encontramos quase 30 milhões que vivem com menos de dois dólares por dia, o que não dá para viver nem sequer com a máxima das simplicidades. E esta é a situação em todo lugar.
Tudo em fortíssimo contraste com os responsáveis, com os governantes, que não é que apenas não têm problemas, mas que levam uma vida de luxo; sabemos que eles são riquíssimos, que eles têm não milhões de dólares, mas bilhões. Até aqui tudo isso tinha sido aceito, mas agora chegou a reação: não dá, não é justo.
Uma quarta característica que me surpreendeu é que não houve agressividade, como normalmente acontecia, contra ninguém. Quero dizer que não atacaram a América, não pisaram na bandeira americana ou na bandeira israelense, as pessoas se preocuparam só com a vida concreta delas mesmas. E não tentaram matar ou prender os chefes do governo: eles condenaram os governantes, mas deixaram ir embora. É um movimento que não é contra alguém, mas que é pela vida, por uma vida mais decente, mais digna.
Tudo isso me faz dizer que é uma verdadeira primavera que se anuncia no mundo árabe e que esperamos que culmine em algo positivo.
- É o início de um caminho para a democratização ou pode acabar dando o poder aos radicais?
Pe. Samir Khalil Samir: Eu me inclino a dizer que estamos no rumo de mais democracia. Vendo as fotos e os vídeos, fica claro que não são jovens manipulados por movimentos radicais, extremistas. No Egito era bem claro, tínhamos por exemplo muçulmanos e cristãos juntos, e os extremistas não conseguiram jogar uns contra os outros. Os políticos também não conseguiram, desapareceram. Tentaram um pouco fazer uma contrarrevolução, mas acabaram sumindo. Não são extremistas radicais de modo algum.
O clima era quase de festa, uma festa popular. Eu vejo que eles desejam apenas mais democracia. Existe um fato que não se percebe direito na Europa, no Ocidente: que as pessoas no mundo árabe são conscientes, e elas mesmas escrevem isso todos os dias, de que o mundo árabe vai muito mal. Que estamos entre os piores do mundo. Este sentimento é muito difundido entre os intelectuais: o que nós produzimos para o bem da humanidade? E existe uma aspiração, de viver como nos outros países.
As pessoas são muito conscientes da Europa, o mundo árabe está muito perto da Europa, todos têm parentes que moram na França, na Alemanha, na Itália, na Bélgica, na Inglaterra, e sabem que aqui a vida é diferente. Sabem que aqui, apesar das dificuldades econômicas, há mais justiça; que se você precisa de um hospital, para uma cirurgia, pode ir, mesmo sendo pobre: o sistema democrático europeu permite, mesmo sem você pagar. As pessoas sabem que na Europa elas vão ser defendidas por um advogado, mesmo não podendo pagar... A justiça funciona para os pobres e para os ricos, ou pelo menos quase... Tudo isso as pessoas sabem, pelos amigos, pela internet, elas vêem cada vez mais, ou escutam os amigos contando. Isso está criando um chamado fortíssimo à democracia. Por isso eu acho que os movimentos radicais, sejam religiosos, comunistas ou de outro tipo, não são representativos nesta revolução. E não estão representados.
-Uma das “surpresas” deste movimento civil está sendo a participação tanto de muçulmanos como de cristãos. Como o senhor avalia este aspecto?
Pe. Samir Khalil Samir: Me surpreendeu, principalmente no Egito. No Egito há 10% de cristãos, e no início de janeiro aconteceu aquela tragédia em que morreram 23 cristãos numa igreja, atacados. E apesar disso, três semanas depois, vemos os cristãos e os muçulmanos juntos, de mãos dadas, levantando a cruz e o alcorão, ou símbolos, como uma bandeira com uma grande cruz e uma grande meia-lua, ou um muçulmano rezando no chão em cima da bandeira egípcia, colocando óculos de sol com a cruz e a meia-lua. Ou na sexta-feira, quando os muçulmanos se ajoelharam para rezar diante dos tanques, enquanto os cristãos, os coptas, os rodeavam para protegê-los, fazendo uma corrente com as mãos! São todos gestos de solidariedade. Os cartazes diziam: “Muçulmano e cristão, uma só mão”, “Muçulmanos e cristãos unidos contra o governo”.
Eu acho que isso também acontece porque é um movimento de jovens. Os jovens não querem mais viver no ódio, estão fartos desses conflitos dos pais deles, da geração velha, e estão dizendo para esses velhos: “Deixem-nos em paz!”. Eles não querem arrastar essas lutas para a vida deles. Eu acho que esse é o pano de fundo, as pessoas querem viver em paz, construir a sua família, o seu povo, ter uma nação mais aberta, mais evoluída.

Entrevistado o perito em diálogo com o islã, Samir Khalil Samir

ROMA, sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) - Para o padre Samir Khalil Samir, jesuíta egípcio, professor de teologia e de islamologia no Pontifício Instituto Oriental e um dos maiores peritos do mundo em diálogo entre cristãos e muçulmanos, o atual movimento é uma “primavera” no mundo árabe, um novo passo rumo à democratização. Veja sua entrevista à ZENIT.
- Que leitura o senhor faz das recentes manifestações no Egito, que derrubaram o regime de Mubarak, e também das manifestações da Tunísia, Argélia, Irã e Líbia, pedindo o fim dos velhos regimes?
Pe. Samir Khalil Samir: Esses movimentos nasceram mais ou menos espontâneos; uma maioria de jovens, sem partidos políticos nem grupos organizados. É uma reação massiva, do povo.
Um segundo ponto em comum entre todos esses movimentos é que eles se voltam contra regimes de décadas, como é o caso da Tunísia (21 anos), do Egito (quase 30 anos), da Líbia (42 anos), do Iêmen (21 anos)... Tudo isso, praticamente em todo lugar, quer dizer que as pessoas estão esgotadas, que elas querem uma mudança e manifestam isso dizendo “Fora!”. Os lemas em árabe dizem irhal (ارحل), que significa “Vá embora!”. É um grito de “basta!”. Aliás, o movimento de oposição a Mubarak se chama em árabe “Basta”, Kefaya.
O terceiro aspecto que me impressiona, e que também é comum a todos esses países, é a motivação, essencialmente a de arrumar trabalho, fazer uma família, viver com um mínimo de decência. No caso da Tunísia, tudo começou com aquele jovem que tinha se formado e não achava trabalho, e que resolveu juntar o pouco que tinha, comprar um pouco de verdura e vender na rua. E aí chega a polícia e fala: “Você não tem autorização”, e leva embora toda a mercadoria. A vida daquele jovem desaba no ato, ali, quando ele estava lutando para viver, e ele tocou fogo em si próprio! Foi isto o que suscitou esse movimento na Tunísia.
No Egito encontramos quase 30 milhões que vivem com menos de dois dólares por dia, o que não dá para viver nem sequer com a máxima das simplicidades. E esta é a situação em todo lugar.
Tudo em fortíssimo contraste com os responsáveis, com os governantes, que não é que apenas não têm problemas, mas que levam uma vida de luxo; sabemos que eles são riquíssimos, que eles têm não milhões de dólares, mas bilhões. Até aqui tudo isso tinha sido aceito, mas agora chegou a reação: não dá, não é justo.
Uma quarta característica que me surpreendeu é que não houve agressividade, como normalmente acontecia, contra ninguém. Quero dizer que não atacaram a América, não pisaram na bandeira americana ou na bandeira israelense, as pessoas se preocuparam só com a vida concreta delas mesmas. E não tentaram matar ou prender os chefes do governo: eles condenaram os governantes, mas deixaram ir embora. É um movimento que não é contra alguém, mas que é pela vida, por uma vida mais decente, mais digna.
Tudo isso me faz dizer que é uma verdadeira primavera que se anuncia no mundo árabe e que esperamos que culmine em algo positivo.
- É o início de um caminho para a democratização ou pode acabar dando o poder aos radicais?
Pe. Samir Khalil Samir: Eu me inclino a dizer que estamos no rumo de mais democracia. Vendo as fotos e os vídeos, fica claro que não são jovens manipulados por movimentos radicais, extremistas. No Egito era bem claro, tínhamos por exemplo muçulmanos e cristãos juntos, e os extremistas não conseguiram jogar uns contra os outros. Os políticos também não conseguiram, desapareceram. Tentaram um pouco fazer uma contrarrevolução, mas acabaram sumindo. Não são extremistas radicais de modo algum.
O clima era quase de festa, uma festa popular. Eu vejo que eles desejam apenas mais democracia. Existe um fato que não se percebe direito na Europa, no Ocidente: que as pessoas no mundo árabe são conscientes, e elas mesmas escrevem isso todos os dias, de que o mundo árabe vai muito mal. Que estamos entre os piores do mundo. Este sentimento é muito difundido entre os intelectuais: o que nós produzimos para o bem da humanidade? E existe uma aspiração, de viver como nos outros países.
As pessoas são muito conscientes da Europa, o mundo árabe está muito perto da Europa, todos têm parentes que moram na França, na Alemanha, na Itália, na Bélgica, na Inglaterra, e sabem que aqui a vida é diferente. Sabem que aqui, apesar das dificuldades econômicas, há mais justiça; que se você precisa de um hospital, para uma cirurgia, pode ir, mesmo sendo pobre: o sistema democrático europeu permite, mesmo sem você pagar. As pessoas sabem que na Europa elas vão ser defendidas por um advogado, mesmo não podendo pagar... A justiça funciona para os pobres e para os ricos, ou pelo menos quase... Tudo isso as pessoas sabem, pelos amigos, pela internet, elas vêem cada vez mais, ou escutam os amigos contando. Isso está criando um chamado fortíssimo à democracia. Por isso eu acho que os movimentos radicais, sejam religiosos, comunistas ou de outro tipo, não são representativos nesta revolução. E não estão representados.
-Uma das “surpresas” deste movimento civil está sendo a participação tanto de muçulmanos como de cristãos. Como o senhor avalia este aspecto?
Pe. Samir Khalil Samir: Me surpreendeu, principalmente no Egito. No Egito há 10% de cristãos, e no início de janeiro aconteceu aquela tragédia em que morreram 23 cristãos numa igreja, atacados. E apesar disso, três semanas depois, vemos os cristãos e os muçulmanos juntos, de mãos dadas, levantando a cruz e o alcorão, ou símbolos, como uma bandeira com uma grande cruz e uma grande meia-lua, ou um muçulmano rezando no chão em cima da bandeira egípcia, colocando óculos de sol com a cruz e a meia-lua. Ou na sexta-feira, quando os muçulmanos se ajoelharam para rezar diante dos tanques, enquanto os cristãos, os coptas, os rodeavam para protegê-los, fazendo uma corrente com as mãos! São todos gestos de solidariedade. Os cartazes diziam: “Muçulmano e cristão, uma só mão”, “Muçulmanos e cristãos unidos contra o governo”.
Eu acho que isso também acontece porque é um movimento de jovens. Os jovens não querem mais viver no ódio, estão fartos desses conflitos dos pais deles, da geração velha, e estão dizendo para esses velhos: “Deixem-nos em paz!”. Eles não querem arrastar essas lutas para a vida deles. Eu acho que esse é o pano de fundo, as pessoas querem viver em paz, construir a sua família, o seu povo, ter uma nação mais aberta, mais evoluída.

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